quinta-feira , 17 agosto 2017

Acapulco Night Club

Para minha querida amiga Georgete Mangabeira
*Almir Carlos

Conheci o Acapulco Clube, ainda na década de 1960, quando a Rua Recife (hoje Mário Ypiranga), era ainda calçada com paralelepípedos e terminava na antiga Estrada do V-8, onde hoje se localiza o Viaduto Miguel Arraes, nos cruzamentos das hoje Avenidas Mario Ypiranga e Darci Vargas. O Clube foi demolido e hoje funciona um Buffet, próximo ao DETRAN, mas na época, só existia o Cassino. .

O Acapulco era nas décadas de 50/60, o “point” da Manaus que contava com apenas 5 bairros e 200 e poucas ruas, além de um pouco mais de 200.000 habitantes. O proprietário desse estabelecimento,era o Senhor Mário Cunha, um sujeito com cara de bonachão e que administrava o recinto com alegria e companheirismo, tanto que todos os funcionários o adoravam, pois eram tratados com muito respeito e recebiam “gorjetas” vultosas…através de fichas da roleta que depois trocavam por dinheiro no caixa…

As noites em nossa cidade eram mais alegres por conta do funcionamento desse Clube que, dentre outras finalidades, tinha o jogo como um dos principais atrativos. A Roleta e o Bacarat, eram os mais requisitados. O Crupiê, era o Seu Petrúccio, pai dos Piolas e meu pai João Carlos, era o encarregado da Força e Luz…

As estrelas mais famosas da nossa música, se apresentaram no Acapulco, como Dalva de Oliveira, Peri Ribeiro, Ângela Maria, Cauby Peixoto, Edith Veiga, Orlando Silva, Nélson Gonçalves, Emilinha Borba, Marlene, Altemar Dutra, Agnaldo Rayol e outros…Vale ressaltar, que os frequentadores não pagavam ingresso para assistir aos shows…porquanto fazia parte como atração do Cassino…

Nessa época, os frequentadores mais assíduos e que jogavam bastante, não pagavam a comida nem as bebidas, que eram por conta da casa…Diz que, um desses, muito exigente e por isso mesmo não muito querido pelos garçons, tinha a mania de mandar voltar o filé pedido, só para mostrar autoridade. O garçom era chamado pelo dito cujo que falando alto dizia: _ Garçom esse filé está mal passado, leve-o e mande fritar um pouco mais!

O garçom muito solícito e educado respondia: _ pois não excelência, como queira, vossa vosso pedido é uma ordem. Ato seguinte, recolhia o prato com o filé servido, colocava-o na bandeja, pedia licença ao cidadão, dava meia volta e se dirigia à cozinha. Ao passar pela porta de vai e vem, pegava o filé com a mão, cuspia, jogava-o no chão, pisava em cima, pegava-o novamente e pedia à cozinheira que “passasse” um pouco mais…esta jogava o bife na frigideira com óleo fervente, passava de um lado e de outro e devolvia-o ao garçom que triunfante entrava novamente no restaurante e cheio de mesuras, servia-o ao cliente.

Algumas estrelas de nossa música, como Dalva de Oliveira e Nélson Gonçalves, vinham a peso de ouro, se apresentar no Acapulco e saiam daqui ”lisas” pois gastavam tudo no cassino e o seu Mário muito gentil, lhes dava uns trocados para que não fossem embora de Manaus com as mãos abanando…

No início da década de 1970, o Acapulco fechou suas portas. Dizem alguns que o Senhor Mário Cunha, saia de lá com toda a renda e se dirigia ao Ideal Clube onde gastava tudo no carteado e que inclusive o próprio Acapulco foi perdido numa mesa de jogo. Outros dizem que ele perdeu uma soma muito alta e pediu a um famoso agiota, a quantia que nunca conseguiu pagar e o Clube lhe foi tomado.

Verdade ou não, o certo é que o Clube fechou, voltando pouco tempo depois a funcionar, agora apenas como boate, não mais como cassino pois o jogo tinha sido proibido no Brasil (segundo os mais velhos, por imposição de uma primeira dama da República, que exigiu de seu esposo, o Presidente, que fechasse os Cassinos pois ela ficara com ódio de ter perdido uma fortuna na mesa de jogo).

Nessa volta do Acapulco como boate, nossa patota de jovens adolescentes, era frequentadora assídua. Fui muitas vezes com o Carriço e sempre nos dávamos bem com as garotas. Via de regra, saíamos acompanhados e terminávamos a noitada rolando com nossas acompanhantes, nas areias da Ponta Negra, depois de nos deliciarmos com uma Peixada no Bar do …

Outras vezes, depois de sermos convidados a não mais frequentar o Clube por motivos óbvios (bagunça e porrada), chegávamos em 8, 10 carros, entrávamos pela saída e saíamos pela entrada, só para curtir com a cara dos seguranças, que ficavam apavorados com nossas presenças, até porque, alguns de nossos colegas que omitirei os nomes, eram filhos de autoridades, razão de não sermos presos e fazerem “vista grossa” com nossas presepadas…o próprio dono, nos pedia por favor para não aprontarmos e geralmente quando ele estava presente, nós nos comportávamos com civilidade…

Lembro de uma noite em que eu estava dançando e escutei uma discussão acalorada. Quando virei, vi um camarada querendo socar o Álvaro; eu não contei duas vezes: desferi um potente soco no nariz do “valentão” que caiu desacordado.

Depois soubemos que se tratava de um piloto da antiga VASP e que estava acompanhado de uma aeromoça que “deu confiança” para meu amigo e o cara ficou puto porque estava perdendo a menina! Ela jurou para o Álvaro que não tinha nada com o cara e que este tinha bebido além da conta e já a estava molestando.

O Acapulco fechou de vez suas portas nos meados do ano de 1970, ali por 1975/76 e nunca mais reabriu. Vale aqui ressaltar, que muitos cronistas classificam o Acapulco como “puteiro”, o que na realidade ele nunca foi, pois, os “puteiros”, tinham além dos salões de danças, os quartos para os amantes…o que não era o caso do Acapulco Clube.

Os principais “puteiros”, eu os retratei em outra crônica com o título de Os Rendz Vous: O La Hoje, Sangri-lá, Verônica, Piscina, Ângelus, Rosa de Maio, Saramandaia, Maria da Patas, Chica Bobó, Forquilha, Floresta´s…época em que não tínhamos os Motéis… em que Manaus terminava no Boulevard Amazonas e todos se conheciam e se cumprimentavam nas ruas, nas praças, nos eventos sociais, época em que tínhamos bastante árvores e igarapés límpidos, balneários e muita tranquilidade…época em que a Vila Municipal era formada por Chácaras e Sítios com bastante fruteiras…sem invasões, sem violências, sem os problemas de trânsito, sem esses bolsões de miséria que chegaram juntamente com o advento da Zona Franca Manaus…

*Almir Carlos, é professor e pedagogo e escreve costumeiramengte sobre as histórias da Manaus antiga neste Portal.

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